De 2018 a hoje: o que o cyberbullying em Adamantina revela sobre a urgência da educação emocional nas escolas
Em 2018, a convite do Lions Clube de Adamantina, estive na Rádio Life apresentando um projeto com um objetivo claro: contribuir para a erradicação do bullying nas escolas do município.
A proposta era — e continua sendo — olhar para o fenômeno de forma completa: acolher a vítima, mas também compreender e trabalhar com o agressor, por meio da educação emocional e social.
Na época, iniciamos um trabalho junto às escolas que trouxe resultados rápidos e significativos. Tivemos relatos, experiências e mudanças de comportamento que mostravam, na prática, o quanto jovens precisam — e respondem — quando encontram espaços de escuta, orientação e desenvolvimento emocional.
Esse trabalho, inclusive, se tornou tema da minha pesquisa de conclusão de especialização pela PUC, transformando-se posteriormente em um artigo científico.
No entanto, com a chegada da pandemia e o isolamento social, o projeto foi interrompido.
Hoje, anos depois, nos deparamos com situações que reacendem um alerta importante.
Ao conversar com vítimas e colegas envolvidos em um recente caso de cyberbullying na cidade, um ponto chamou atenção: a surpresa em relação ao autor.
Segundo os relatos, tratava-se de um jovem quieto, mais reservado, que respeitava as meninas, mas que frequentemente era alvo de zoações por parte de outros colegas, especialmente por seu jeito mais retraído.
Esses mesmos relatos indicam que, na tentativa de pertencimento, ele buscava se adaptar ao grupo, entrando nas brincadeiras e sendo, muitas vezes, incentivado a se aproximar de meninas — o que, quando não correspondido, se transformava novamente em motivo de exposição e ridicularização.
Além disso, tive acesso a um pedido de desculpas feito por esse jovem, no qual ele reconhece o erro, afirma não se orgulhar do que fez e expressa arrependimento.
Esse conjunto de elementos não diminui a gravidade do ocorrido.
Mas amplia — e muito — a necessidade de reflexão.
O que esses episódios nos mostram é que o bullying não é um comportamento isolado. Ele está inserido em dinâmicas sociais complexas, onde há busca por aceitação, medo de rejeição e, principalmente, ausência de preparo emocional para lidar com essas experiências.
Por isso, a resposta não pode ser apenas punitiva.
Ela precisa ser educativa.
A educação neuroemocional nas escolas é hoje uma necessidade urgente. Ensinar crianças e adolescentes a reconhecer, nomear e lidar com suas emoções é fundamental para prevenir comportamentos agressivos e promover relações mais saudáveis.
Mais do que isso, é preciso ensinar o autoacolhimento e o acolhimento do outro.
Porque quando o jovem não sabe lidar com o que sente, ele pode acabar expressando isso de forma destrutiva.
E quando ele aprende, ele transforma.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “o que aconteceu?”, mas sim:
o que estamos fazendo — ou deixando de fazer — na formação emocional dos nossos jovens?
Retomar esse debate é essencial.
E, mais do que isso, retomar ações concretas junto às escolas e famílias é o caminho para que histórias como essa não se repitam.
Angela Testa
Psicóloga | CRP 06/142427